A Janela
Escrito por Mestre | O que você acha? 4 comentáriosA cidade quase adormecida pelo leve barulho do cair das gotas de chuva no chão. Esse barulho se assemelha a um chuveiro não desligado, ou então á uma torneira que pinga sem ser notada.

De milhares de janelas, poucas ainda permaneciam com suas luzes acesas. Uma janela com estrutura de ferro e vidros não muito limpos destacam-se entre as outras.
- Você é uma vadia! – o marido esbofeteou a mulher que devia ser sua esposa.
- Covarde! Bata mais se é homem. – O sangue escorria no canto dos lábios vermelhos e macios. Ela ainda mantinha suas bochechas rosadas contrastando com a pele alva e o roxo nos olhos.
- Não agüento mais essa casa… – ele andava como uma barata tonta de um lado para outro – Não agüento voc… – interrompeu a fala e fixou o olhar em um sobrado adiante, 50 metros. Apertou as mãos na moldura da janela, estava frio devido ao sereno da noite e molhado, devido a chuva que mesmo fraca insistia em cair. – E Não agüento aquilo! – apontou então um dedo para fora da janela, mostrando a sacada.
- O que? Não agüenta os vizinhos? – perguntou a mulher com as pernas levemente dobradas, pronta para fugir se ele se atrevesse a ir em sua direção.
- Não agüento aquela criança na sacada! – virou de costas para a janela. – Aquela criança inútil está sempre ali. Observando… e sempre virada para nós! Eu vou falar com os pais dela… não é possível! – esbravejou ele.
A mulher bufou, ergueu a coluna e esgueirou-se para a janela afugentando-se do marido. Fechou a cortina com tanta força que o terminal do trilho arrebentou do ferro e do pano.
A cortina era escura. Já não se via a luz naquela janela.
De sua sacada, Luís observava as luzes da cidade ao longe. Sempre ficava ali. Chovendo ou com o mais radiante dos sóis. Adorava levar seu Notebook para a varanda e escrever seus contos sob a luz das estrelas. Deixava a luz do quarto e da sacada apagadas, assim o brilho do céu não era ofuscado.
Naquela sexta-feira a chuva não permitiria que ele sentasse ali e curtisse o vento noturno. Mas quem disse que ele não podia apenas estar de pé?
Ele se sentia deprimido com sua vida. Havia anos não pensava mais nisso, mas hoje ele retomou o pensamento de uma corda em seu pescoço.
“Eu gosto de você, mas… é que você é anão!” foi o que Maria disse acompanhada de um sorriso que daria nojo em catador de lixo. E essas palavras martelavam na cabeça de Luís há uma semana. Suas lágrimas eram freqüentes, ele faltara três vezes no trabalho só nos últimos dias.
Sexta-feira á noite. Deixou de ir beber com os amigos e ficou a observar a paisagem urbana.
De repente, uma janela aberta e com a luz acesa chamou-lhe a atenção. Um casal. Ótimo! Tudo que ele precisava era um casal de pombinhos e… Ele viu o soco. Sua indignação foi tamanha que sentiu o soco em seu próprio estômago.
Não agüentou a injustiça de alguém que não merecia ter tido um amor. Os jornais do dia seguinte nada falaram, apenas seu nome estava na lista dos falecidos do dia.
Escrito por Kika Schwambach
Seja brother e curta a minha fanpage
4 Comentários em A Janela
[...] This post was mentioned on Twitter by ahnao, Kelly Almeida. Kelly Almeida said: MAS TINHA QUE COLOCAR O NOME DO MEU EX? D: -QQQQQQQQ RT @ahnao: Quem gosta de contos (não é erotico) ? http://bit.ly/7mnTHQ [...]
Caracoles! Parabéns pra autora! Texto meio melancólico mas muito bom!
Nossa, bem forte! muito bem escrito!
Uau. Muito bom!





































